"Estamos perdendo a capacidade de sonhar"
Setembro Amarelo coloca em evidência a crise que já ultrapassou consultórios e chegou ao trabalho, às relações e à própria capacidade de viver

O adoecimento mental já mata mais do que muitos conflitos de guerra. O mundo está diante de uma crise de saúde mental sem precedentes, mas ainda pouco ruidosa e sem a devida resposta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 720 mil pessoas morram por suicídio todos os anos. A própria OMS já utilizou a referência de uma morte a cada 40 segundos — e os dados mais recentes, referentes a 2021, apontam 727 mil mortes. O suicídio permanece entre as principais causas de morte de jovens de 15 a 29 anos.
No Brasil, o impacto também aparece de forma concreta no mundo do trabalho: 472.328 pessoas foram afastadas em 2024 por transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 68% em relação ao ano anterior. “Estamos vivendo uma guerra não declarada, onde o campo de batalha é a própria mente humana, e as trincheiras são os afetos” - afirma Jamila Gontijo, psicanalista e empresária do setor de cuidado e bem-estar. Para Jamila, é preciso reconhecer que estamos falhando como sociedade:
“Nossos jovens estão preferindo desistir da vida, e muitas pessoas não conseguem mais se manter em um sistema em que trabalhar significa apenas pagar boletos, sem encontrar bem-estar, sentido ou realização.” – aponta a terapeuta com mais de 10 anos de atuação clínica.
A OMS estima que depressão e ansiedade, sozinhas, provoquem a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com impacto estimado em US$ 1 trilhão em produtividade perdida. “O estilo de vida digital, as redes sociais funcionando como vitrine hiper idealizada e materialista, somados à dificuldade de criarmos relações reais – e não virtuais - aprofundaram a sensação de vazio, de falta de perspectivas e de propósito. Estamos perdendo a capacidade de sonhar em troca de viver uma fantasia consumista e, muitas vezes, vazia.” – aponta Jamila.
Saúde Mental não é só ausência de transtornos
Para a terapeuta e gestora, falar de saúde mental não pode se limitar ao momento em que alguém já está em crise. O Setembro Amarelo, em sua visão, precisa ser também um convite à prevenção, à escuta e à construção de uma vida que faça sentido antes que o sofrimento se torne insuportável. “Precisamos falar sobre saúde mental antes que a pessoa queira desistir da própria vida. Cuidar da mente não é luxo. É uma questão de sobrevivência.”
Jamila Gontijo atua promovendo saúde mental e gestão emocional para pessoas e negócios.




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